A meritocracia porcamente importada

Aprender inglês é interessante. Claro, é interessante pela língua em si,e talvez seja um entretenimento aprender qualquer língua. Mas no caso do inglês existe um fator adicional e inegável. Existe uma constante surpresa sobre as origens dos nossos próprios pensamentos. Conforme a gente vai estudando inglês, a gente vai descobrindo essa verdade inconveniente e antes invisível.

Nossas milhares de sessões da tarde com filmes americanos dublados, nossos milhares de artigos de jornal simplesmente traduzidos de textos originalmente em inglês sem dúvida têm um grande efeito. Não podemos, ainda que isso seja doloroso, negar que parte da nossa forma de pensar foi moldada pela influência do USA e do Reino Unido. E, sem medo de errar, podemos estimar que quanto mais alguém lê jornais traduzidos, quanto mais alguém assiste à filmes legendados, e quanto mais viagens à Disney alguém se expôs, maior será esta influência.

Estou falando, é claro, da elite brasileira.

Ontem saiu um texto do Paul Krugman no New York Times falando sobre a desigualdade social no USA. Segundo Krugman, existe no USA um mito de que o pobre é aquele que fez as escolhas erradas. E ainda que existe também o mito de que o rico conseguiu o resultado oposto ao pobre, tornando-se um vencedor, justamente por ter feito as escolhas certas. Quando mais alguém se encaixaria no modelo vitoriano de família e trabalho duro, tanto mais rico esse alguém se tornaria.

Krugman afirma que é possível argumentar que isso chegou a ser verdade no USA mais de 30 anos atrás, mas que desde então é inegável que o que impede ao pobre se tornar rico não é uma falha quase moral do pobre. Não se trata de o pobre não ter constituído a família nos moldes “corretos”, ou de não ter sido virtuoso e não ter estudado ou trabalhado o bastante. Segundo Krugman, a explicação simples é a ausência de oportunidades decentes para o pobre.

O autor ainda acrescenta que existe muita manipulação nos dados para mascarar a concentração de renda que é cada vez pior no USA. Essa manipulação tem o objetivo de embasar esses argumentos do mérito dos mais ricos e esconder a diferença de classes.

Meu interesse aqui é traduzir o artigo para a realidade brasileira. Traduzir para o português, a Folha já o fez. O que me espanta é que, assim como o filme de bangue-bangue do USA deu origem ao Beto Carreiro World, a ideia de mérito foi importada, mas completamente fora do seu contexto. Se no passado pode ter sido verdade que o pobre no USA podia se tornar rico por meio do trabalho, no Brasil, por outro lado, o passado era pior do que o presente.

Parece que Brasil e USA vão se encontrar no meio do caminho num futuro próximo. O primeiro se tornando menos desigual, o segundo se tornando cada vez mais. A diferença é que no Brasil a elite vem fingindo achar que aqui qualquer um nasce com as mesmas condições para vencer na vida. Ou seja, desde sempre a elite daqui finge que o Brasil sempre foi como o USA era há mais de 30 anos: uma terra de oportunidades abundantes onde quem não enriquece é quem teve preguiça.

Por que a elite brasileira pensa dessa forma? Porque é mal informada? Talvez, mas não vamos dar o benefício da dúvida a essa gente que nunca deu nada para ninguém.

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