O eleitor de olhos fechados

Uma eleição como outra qualquer no Brasil:

Hoje é dia de eleição. Eu, eleitor, vou à minha zona eleitoral para votar. Chegando lá eu apresento o meu título de eleitor ao mesário e assino a folha de presença. O mesário digita o número do meu título de eleitor em um tecladinho. Existe um cabo preto ligando o tecladinho a algo que está atrás de um biombo. Então eu vou para trás do biombo para votar com privacidade. Atrás da mesa está um homem com um grande caderno, um lápis e uma borracha. Eu nunca tinha visto aquele homem na vida, mas ele me parece sério e eficiente. Ele está com um fone de ouvido e está anotando algo no caderno. Percebo que o fone de ouvido dele está conectado ao cabo preto que sai do tecladinho do mesário. A coisa toda foi feita de forma engenhosa. Isso serve para o mesário não ter que ficar gritando o número do eleitor que vai votar a seguir. Assim o homem escuta o número pelo fone e anota no caderno. Quando ele termina de anotar o meu número, eu digo pra ele em quem eu quero votar, bem baixo para ninguém ouvir: “para prefeito, eu voto no X, para presidente, eu voto no Y”. O homem então anota os meus votos no caderno, a lapis, e não me deixa ver o que ele está anotando. Mesmo eu esticando o pescoço para ver se ele colocou um X e um Y nos lugares certos, eu não consigo ver nada que ele anotou ali. Nem o meu voto, nem os votos de quem votou antes de mim. Ele, então, se dirige a mim e diz: “fim”. Me levanto e vou pegar o meu título de eleitor com o mesário. Saio da escola estadual onde fica a minha zona eleitoral com aquela sensação de dever cumprido e encontro minha esposa me esperando no portão da frente. Voltamos juntos para casa para aproveitar o resto do domingo. Resolvemos fazer um churrasco. Esse ano eu resolvi caprichar e comprei mais picanha e menos frango. Ainda assim tem frango pra criançada. A família toda deve ficar lá até o horário do jornal da noite, que é quando a apuração eletrônica está prometida para ficar pronta.

Você prestou atenção na história acima? Conseguiu encontrar alguma difereça com a realidade? Uma dica: só existe uma diferença fundamental.

Certo, aqui vai a resposta: no Brasil, nós não votamos em prefeito e presidente no mesmo ano. Eu nunca entendi como aparentemente só eu consigo ver o homem com o caderno, lápis e borracha.

Por mais que eu tente convencer todo mundo que eu conheço de que é isso que eu vejo atrás do biombo, ninguém parece acreditar em mim.

Um amigo, uma vez, depois de me escutar pacientemente descrever o homem, o lápis e o processo todo me disse “Tá bom, vamos fingir que o homem existe. E daí? Grande coisa!”.

Como assim e daí? E daí que ele pode escrever o que ele quiser ali no caderno. A anotação não foi nem a tinta! Mesmo que eu tivesse visto o que ele anotou, quando eu dei as costas, ele pode ter apagado o que escreveu e anotado o meu voto para outro candidato.

E o meu amigo: “cara, o TRE sabe o que está fazendo. O nosso sistema é o mais moderno do mundo. Todo mundo copia o nosso sistema. O resultado sai super rápido. Veja como é patético o sistema em outros países, com aquele pessoal contando papeizinhos.”

Espero que você, leitor, já tenha entendido a metáfora. O nosso sistema de urna eletrônica funciona da mesma forma. Com a diferença que ao invés do homem com o caderno, temos um computador com uma memória. Mas a diferença principal termina aí. Quando eu digito o meu voto na urna eletrônica, eu não sei o que está sendo anotado na memória do computador.

Além de não saber o que foi anotado, eu não tenho como verificar posteriormente se os votos foram anotados corretamente. Não existe possibilidade de auditoria quando não existe possibilidade de comparação. Eu não estou acusando o sistema de não somar os votos corretamente. Eu estou acusando o sistema de não permitir auditoria nos resultados, pois não há como comparar o resultado que a urna solta com qualquer outra coisa.

Como deveria ser o sistema? Simples:

  1. o eleitor digita em quem quer votar
  2. a urna eletrônica imprime um comprovante contendo o número dos candidatos escolhidos
  3. o eleitor verifica se o comprovante foi impresso corretamente. Ou seja, se aquilo que está escrito no comprovante é de fato aquilo que ele digitou na urna
  4. se o comprovante estiver correto, o eleitor sai de trás do biombo e deposita o comprovante em uma urna convencional
  5. após o eleitor depositar o comprovante na urna convencional, o mesário registra o voto

Se o comprovante não estiver correto, o eleitor deve rasgar o comprovante (ou queimar) e tentar de novo. Por isso o mesário deve ser quem registra o voto na urna eletrônica. Pois aí o eleitor pode tentar várias vezes até estar satisfeito com o comprovante.

Então pra que precisamos da urna eletrônica? Simplesmente para somar os votos rapidamente.

Para que precisamos da urna convencional? Por que a urna convencional é a única forma segura de determinar qual foi o resultado da eleição. Não temos 100% de certeza de que a urna eletrônica é segura.

Não existe tecnologia que garanta que o voto digitado é igual ao voto registrado eletronicamente. Então nós, humanos, precisamos de uma forma direta de observar os votos. Que evidências eu tenho para comprovar isso? Primeiro, mesmo que eu não tivesse qualquer evidência, o próprio funcionamento do sistema não me deixa mentir.

Repito, eu tenho evidências e as apresentarei a seguir, mas este é um caso em que o sistema é logicamente não confiável. Eu não preciso de nada além da lógica para ver que o sistema é fundamentalmente não confiável. Humanos não conseguem observar o conteúdo de uma memória de computador de forma direta. Por isso eu usei a metáfora do caderno que eu não posso olhar.

O que eu chamo de “memória” pode ser um HD, um chip de memória, um DVD, etc. Toda vez que um humano quer saber o conteúdo de uma memória de computador, ele deve pedir para um equipamento ler esta memória e dizer para o humano qual é o conteúdo dela. Não dá pra olhar um DVD contra a luz e ler as palavras que estão escritas ali. Pensemos, então, no caminho que a informação percorre:

  1. os dedos do eleitor digitam o voto
  2. o teclado lê o voto e passa esta informação para o processador do computador
  3. uma série de softwares dentro do computador lê o voto, mostra o voto na tela e pede para uma memória registrar o voto
  4. a memória registra o voto
  5. no final do dia, o conteúdo da memória do computador deve ser copiada para um computador central, onde os votos serão somados (aqui, o conteúdo da memória passa de sistema em sistema, podendo ser transferido via Internet ou por meio de memórias portáteis)
  6. o computador central soma os votos
  7. humanos tem acesso ao resultado

Todos os passos de 2 a 6 são feitos sem que humanos tenham qualquer acesso direto aos dados. Note, humanos podem acessar os dados em qualquer parte deste processo, mas sempre indiretamente.

Se qualquer coisa estiver errada nos passos 2 a 6, o resultado da eleição pode ser manipulado. Por exemplo, se todo o processo estiver correto, mas a memória do passo 3 for trocado por um software malicioso, não adianta você ter digitado que quer votar em “João” e ter visto na tela a palavra “João”. O software pode mandar a memória registrar o voto para o “José”.

A memória não tem como saber que o voto está errado. Nem nada no passos 5, 6, ou 7 podem saber que o voto está errado. Não adianta o TRE jurar que todo software e hardware usados são infalíveis. Mesmo que existisse tal coisa como um sistema de informática infalível, eu como eleitor preciso ter mais garantias sobre a qualidade do sistema.

E agora às evidências. Mas, não são evidências que simplesmente corroboram com a tese de que os resultados não são auditáveis. As evidências mostram um cenário ainda pior: o sistema que gera os resultados não é auditado corretamente. O TRE deixa técnicos observarem a urna eletrônica por somente algumas horas, dentro do prédio do TRE. Ao sair, os auditores não podem levar cópias do software usado na urna para avaliar se o software funciona corretamente.

Com apenas algumas horas para observar milhares de linhas de código fonte, é humanamente impossível determinar se o software não tem problemas. Pergunte a qualquer programador, se esta tarefa é possível.

Eu nunca comeria em um restaurante no qual a vigilância sanitária estivesse proibida de entrar. Se nem a vigilância sanitária e nem eu tivermos acesso à cozinha, eu não posso afirmar que a cozinha tem pouca higiene, pois eu só vejo o resultado final do processo de cozimento. Mas eu também não tenho qualquer evidência confiável de que a cozinha é limpa.

Com o voto eletrônico é ainda pior, pois eu não tenho uma dor de barriga no dia seguinte para me dizer que algo estava errado. Não tem como eu pegar a comida e levar a um laboratório para procurar salmonela ou outras bactérias. Um voto adulterado tem uma aparência idêntica a um voto não adulterado. A urna eletrônica é um sistema que apagaria as provas de uma adulteração.

Então o que leva todos os países a copiar o nosso sistema? Nada. Isso é uma lenda. O fato é que ninguém nos copia, e não somos copiados justamente por todos os problemas que citei.
Você pode ver mais informações nesta entrevista com um especialista em urnas eletrônicas: http://www.youtube.com/watch?v=Op9N2EyoZHo – É uma entrevista bem longa, mas vale a pena.
E aqui um estudo da universidade de Princeton, mostrando que eles conseguiram instalar um software que rouba na eleição, usando uma urna eletronica igual aquela usada em alguns estados do USA:
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