Sobre meus dados na internet

Este post é o meu manifesto contra ter a meus dados na Internet. Quando digo “dados”, me refiro principalmente às minhas fotos.

É mais fácil eu descrever a minha opinião aqui do que tentar explicar os motivos pelos quais eu não quero meus dados na Internet para cada pessoa que eu conheço. Se você concorda com as minhas idéias, convido você a compartilhar o link para este artigo.

Paranoia

A primeira coisa que ouço quando eu falo algo contra minhas fotos na Internet é que eu sou paranoico. O problema é que as pessoas ainda tentam entender os riscos referentes aos seus dados com a cabeça de 1990. Antes de existir a Internet, de fato era paranoico se preocupar com a vigilância a respeito da nossa vida privada. Se eu não fiz nada de errado, então ninguém investigava a minha vida.

Na época em que a bisbilhotice era feita à mão, de fato quem quer que seja que quisesse bisbilhotar na minha vida teria um imenso trabalho. A bisbilhotice, por tanto, custava muito dinheiro simplesmente porque era necessário pagar para que alguém gastasse muito tempo fazendo isso.

Com o computador é diferente. A bisbilhotice se tornou quase grátis.

A pergunta não é por que bisbilhotar. A pergunta, é por que não bisbilhotar.

Então o desincentivo econômico repentinamente desapareceu e mudou completamente a relação custo-benefício na bisbilhotice. A rede social tornou menos necessário ir atrás do dado. Ao contrário, o dado vai atrás da rede social. Todos os dias, milhares de novas fotos são inseridas por usuários de redes sociais, por vontade própria.

Quem é o paranoico agora?

A quantidade de gente que me acha paranoico diminuiu. Não porque eu fiquei menos chato com a minha privacidade. Mas porque eu sempre estive certo e agora eu tenho como provar.

É fato de incontestável e de pleno conhecimento que empresas de Internet colaboraram com o governo dos Estados Unidos no programa PRISM [a1]. No Brasil, por exemplo, porta vozes de filiais dessas empresas se manifestaram dizendo que nunca tinham ouvido falar nestes programas. [a2] Mas as declarações se restringem ao Brasil. Hoje em dia os dados dessas empresas são frequentemente replicados em servidores em outros países. Quando esses dados vão para servidores em outros países, eles estão sujeitos às leis deste outro país.

A imagem do meu rosto é um dado, e o menos editável que eu tenho

Os dados a meu respeito não têm todos a mesma natureza.

Certas coisas podem mudar a qualquer momento. Se hoje eu gosto de carros de corrida ou de reggae, amanhã eu posso gostar de jardinagem e heavy metal. Eu posso deixar de ser amigo do João. Eu posso aprender uma língua nova. Eu posso passar a ter um namorado.

Certos dados podem ser usados para tentar inferir quem eu sou, ainda que de forma imprecisa. Eu posso ter o mesmo nome que outra pessoa. Eu posso ter estudado no colégio Santa Inácia e me formado em 1990 e me chamar Pedro. Alguém pode tentar inferir erroneamente que eu seja o Pedro da Silva, que se formou comigo.

Mas uma coisa eu não posso nem mudar e me identifica de forma muito precisa: meu rosto. A não ser que eu passe por uma cirurgia plástica, eu não posso mudar o meu rosto. E isso não é por acaso. Nós humanos precisamos ter cada um seu próprio rosto para que possamos nos identificar.

O problema é quando esta identificação é feita por um computador que usa os nossos dados contra o nosso interesse. Ainda que não seja possível inferir qualquer coisa somente observando o rosto de alguém, a informação do rosto somada a dados pessoais pode ser usada contra o seu interesse.

Para onde a tecnologia avança

A tecnologia está avançando rapidamente [a3] [a12]. Um dos objetivos da pesquisa nessa área é conseguir fazer com que o computador crie um números a partir de imagens de rostos. Duas imagens diferentes do mesmo rosto devem gerar o mesmo número. Duas imagens de rostos diferentes devem gerar números diferentes. Ou seja, sempre que o seu rosto for fotografado, o computador consegue identificar quem é você. É como se você tivesse um número de passaporte impresso no seu rosto e o computador conseguisse ler este número.

Consequências possíveis

Vários dos seus direitos dependem da sua privacidade.

  1. Você ter o visto para determinado país misteriosamente negado – Por exemplo, pq alguém que saiu em alguma foto com você foi pra cadeia, ou porque algum parente seu já quebrou uma lei de imigração.
  2. Você ter sua candidatura a uma vaga de emprego misteriosamente negada – por exemplo, pq a empresa descobriu que você troca muito de emprego, ou porque a empresa descobriu que você tem HIV. [a9]
  3. Uma empresa se negar a te vender um plano de saúde – por exemplo, pq a empresa de planos de saúde descobriu que várias pessoas da sua família têm uma certa doença hereditária
  4. Você pode ser intimidado por determinado partido político, após ele ter descoberto qual candidato você apoia.
  5. Seu governo assediar moralmente você [a6] [a7] e a sua família se você se tornar um dissidente. Mesmo que você viva em uma democracia perfeita, uma das formas de garantir que ela continuará perfeita é ter os meios de corrigi-la quando ela passar a ter qualquer defeito.
  6. Você pode ter fotos suas usadas comercialmente sem que você tenha qualquer direito sobre estas imagens. Todo site no qual você cria usuário tem termos de uso. São aqueles textos longos que ninguém lê e simplesmente clica em “Aceito” para usar o site. Pois bem, vários termos de uso dizem que toda informação que você insere no site passa ser de propriedade integral do site. Você não tem direitos sobre as suas próprias fotos. [a8]

Certas conclusões a meu respeito com base nos meus dados podem ser completamente especulativas: se eu sou fumante, eu não estou necessariamente prestes a morrer. Se eu apareço bebendo nas minhas fotos na rede social eu posso não ser alcoólatra. Se eu leio artigos sobre pirataria, eu posso não ser alguém que infringe direitos autorais. Se eu estudo o Islã, eu posso não ser muçulmano. Se eu sou muçulmano, eu posso não ser um terrorista.

Ainda assim, estas conclusões especulativas podem ser usadas contra mim.

A vida pública e vida privada

Parece necessário explicar o óbvio. Existe uma vida pública, e outra privada. Em casa, eu posso gostar de beber até cair. No trabalho, eu posso mandar um subordinado embora por ter tomado uma cerveja no almoço. Em casa, eu posso gostar de me pintar de palhaço com o meu filho. No trabalho, eu posso ser um juiz. Em casa eu posso ter um parceiro do mesmo sexo. No trabalho, eu posso ser professor da pré-escola.

Quando eu concordo em aparecer na TV, por exemplo, esta é a minha vida pública. Ali eu vou me vestir e me comportar de acordo com a imagem e informações que eu quero passar. Se eu sou médico por profissão e motoqueiro nas horas vagas e estou na TV para falar sobre a importância da vacinação infantil, eu vou vestido de médico, não de motoqueiro.

Se você decidiu que a sua vida privada será parte da sua vida pública, eu respeito a sua decisão. Então por favor respeite a minha decisão de manter as duas coisas separadas. Eu tenho este direito. E este é um direito que se refere a uma decisão pessoal. Eu não preciso justificar os motivos pelos quais eu quero as coisas assim.

Privacidade é o custo, conveniência é o benefício

Mesmo sem a Internet, você pode compartilhar as suas fotos com seus amigos usando uma memória (DVD, ou flash drive USB por exemplo). A Internet torna este processo mais conveniente e o preço que você paga é abrir mão da sua privacidade.

A sua privacidade é valiosa para as empresas de Internet pois os seus dados pessoais são usados para fazer análises de mercado. Mas para que serve esta análise?

Com a análise de mercado, as empresas podem mostrar propagandas nas quais é mais provável que você clique. Também é possível tirar conclusões a respeito de quais produtos as pessoas consomem mais, etc.

Até aqui, fornecer nossos dados não é um grande problema. O problema começa quando essas mesmas empresas fornecem os seus dados para governos espionarem a sua vida, como ficou demonstrado após o vazamento do programa PRISM, do governo dos Estados Unidos. Este programa não é um detalhe qualquer, mas algo que tomou imensas proporções e se tornou um grande incidente diplomático [a4] [a5]. Obama veio a público diversas vezes para tentar justificar o programa, para tentar responder à indignação geral dos estadosunidenses [a10]. Existe discussão sobre se o programa de vigilância é constitucional [a11].

Mesmo antes deste programa PRISM, empresas como o Yahoo já vem colaborando com governos autoritários para prender dissidentes políticos [a6] [a7]. Traduzido de [a6], outubro de 2007:

“Shi [jornalista dissidente] foi mais tarde preso em sua residência em Beijing depois que o Yahoo deu informações às autoridades chinesas sobre sua conta de e-mail, o endereço de seu computador, seu histórico de acessos e os conteúdos de várias semanas de mensagens de e-mail, disse Lantos [presidente de um comitê de assuntos estrangeiros nos Estados Unidos].”

Não seja ingênuo. Este tipo de abuso aconteceu no passado, continua acontecendo e acontecerá novamente no futuro.

Etiqueta

Aqui vai uma lista de diretrizes sugeridas:

  1. Deixe as crianças fora disso – Imagine que você resolveu colocar todas as fotos da infância do seu filho na Internet e agora seu filho tem 20 anos e odeia saber que tem suas fotos de criança em um servidor de uma empresa em outro país. Não jogue fora a privacidade de alguém antes que esta pessoa possa decidir por si mesma. Se quando chegar aos 20 anos seu filho quiser colocar tudo na Internet, é direito dele. Se ele não quiser, também é direito dele. Quando ele é criança, ele não consegue decidir. Deixe ele decidir quando ele for adulto. Idem para os filhos dos outros. [a13]
  2. Respeite a decisão dos outros – Cada pessoa tem seus próprios gostos e eles podem não ser iguais aos da maioria. Mesmo que a maioria das pessoas aceite ter suas fotos na Internet, isso não justifica desrespeitar a vontade de quem não aceita.
  3. Pergunte primeiro, coloque na Internet depois – Seja educado. Se você não tem certeza se uma determinada pessoa aceita ou não ter suas fotos na Internet, pergunte primeiro.
  4. Na dúvida, não coloque na Internet – Se você não sabe se alguém quer seus dados na Internet, simplesmente não coloque.
  5. Enviar por e-mail também é colocar na Internet – Quando você envia algo por e-mail, você está transferindo dados para um servidor. Isso é equivalente a colocar os dados em uma rede social mantida por uma empresa.

Referências

[a1] Programa PRISM – http://pt.wikipedia.org/wiki/PRISM_(programa_de_vigil%C3%A2ncia)

[a2] Empresas de tecnologia negam acordo com governo dos EUA para passar dados – http://oglobo.globo.com/mundo/empresas-de-tecnologia-negam-acordo-com-governo-dos-eua-para-passar-dados-9634893

[a3] Scanner facial está fazendo progressos na área de viglância – Facial Scanning Is Making Gains in Surveillance http://www.nytimes.com/2013/08/21/us/facial-scanning-is-making-gains-in-surveillance.html?hp

[a4] UE cobra explicações dos EUA sobre escutas no bloco – http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,ue-cobra-explicacoes-dos-eua-sobre–escutas-no-bloco-,1048809,0.htm

[a5] Espiões, Snowden, asilos – http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,espioes-snowden-asilos–,1049184,0.htm

[a6] Yahoo acusado de enganar Congresso sobre jornalista Chinês – Yahoo accused of misleading Congress about Chinese journalist – http://edition.cnn.com/2007/US/10/16/yahoo.congress/index.html

[a7] Yahoo é forçada a se desculpar a dissidentes chineses a respeito de repressão a jornalistas – Yahoo forced to apologise to Chinese dissidents over crackdown on journalists – http://www.theguardian.com/technology/2007/nov/14/news.yahoo

[a8] Instagram diz que agora tem o direito de vender suas [do usuário] fotos – Instagram says it now has the right to sell your photos –

http://news.cnet.com/8301-13578_3-57559710-38/instagram-says-it-now-has-the-right-to-sell-your-photos/

[a9] Empresas especializadas em verificação de detalhes em redes sociais garantem que fotos que colocam em risco seu emprego farão parte do seu pedido de emprego – Social Media Background Check Company Ensures That Job-Threatening Facebook Photos Are Part Of Your Application – http://www.forbes.com/sites/kashmirhill/2011/06/20/now-your-embarrassingjob-threatening-facebook-photos-will-haunt-you-for-seven-years/

[a10] Presidente Obama discute programas de vigilância da NSA (Agência de Segurança Nacional) – President Obama Discusses NSA Surveillance Programs – http://www.youtube.com/watch?v=0M359yEQcvU

[a11] Corte ultra secreta critica severamente a NSA por conta de vigilância – Top-Secret Court Castigated N.S.A. on Surveillance – http://www.nytimes.com/2013/08/22/us/2011-ruling-found-an-nsa-program-unconstitutional.html?_r=0

[a12] Chegada do scanner de rosto – The Face Scan Arrives – http://www.nytimes.com/2013/08/30/opinion/the-face-scan-arrives.html?hpw&_r=0

[a13] Nós não postamos nada sobre nossa filha online. Nada. Esta é a única forma de defendê-la contra reconhecimento facial, classificação no Facebook, e data mining corporativo — We post nothing about our daughter online – Nothing. It’s the only way to defend her against facial recognition, Facebook profiling, and corporate data mining. http://www.slate.com/articles/technology/data_mine_1/2013/09/facebook_privacy_and_kids_don_t_post_photos_of_your_kids_online.html?wpisrc=most_viral

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