De novo, e quase vencidos pelo cansaço, explicando o que de fato é o tal estado laico

Nos últimos dias vimos a vinda ao papa ser acompanhada de pequenas manifestações. Sim, as manifestações foram diminutas, apesar de terem sido aumentadas para vender jornal. Por exemplo, a encenação em que uma pessoa inseria um crucifixo no ânus tiveram apenas dois participantes. Mas não quero falar sobre isso.

Não estou evitando o assunto, mas eu simplesmente não me informei o bastante sobre o ocorrido para dar opiniões. O que eu sei é que isso foi o suficiente para reativar a tradicional troca de acusações entre conservadores e grupos de minorias. Parece que a dupla que fez a encenação não tem qualquer vinculação com as minorias que se manifestavam. E parece que as minorias se apressaram em mostrar essa desvinculação.

Este post é sobre o estado laico. Tentando navegar entre o emaranhado de informações desencontradas sobre as manifestações durante a visita do papa, pude ver que muita gente simplesmente não entende a manifestação por um estado laico. Mais de uma vez, vi as feministas sendo chamadas de estúpidas por se manifestarem por um estado que já é laico e para um papa que prega o laicismo do estado.

Não acredito que estou realmente tentando explicar que o estado brasileiro não é laico, ou pelo menos não laico o bastante. E também não acredito que não esteja claro que a questão da laicidade do estado tem a ver com a visita do papa.

Primeiro, um estado de fato laico é um que é reconhecido como tal pela sociedade. Não adianta um estado ser nominalmente laico quando a sociedade não entende a distinção entre um líder religioso e um político. É necessário que nos manifestemos para tentarmos trazer a sociedade para a discussão. Nas palavras do próprio papa, os lobbys são um problema. Um lobby religioso dentro do governo é um problema, pois insere na discussão política um componente ideológico.

Não estou defendendo que a religião seja abandonada durante o governo. A religião, como fonte de pensamento sobre a moral, pode ter suas idéias usadas como inspiração em um governo. Mas um lobby não é isso. Um lobby é uma tentativa de imposição de poder político. No caso do lobby evangélico, o discurso religioso é usado para levar pra frente interesses privados. Direita e esquerda são obrigadas a fazer alianças com evangélicos. Este é o segundo ponto: um estado assim não é laico. Não somente o estado brasileiro não é reconhecido como laico pela sua população, como também a presença religiosa dentro da política concretiza o viés religioso do estado.

Também acho que é necessário responder àqueles que querem o papa fora disso. Não ouvi o papa dizer que preferia uma recepção menor, ou que qualquer lugar estaria bom para ele conversar com os fiéis. Ao contrário, o papa aceitou e agradeceu a recepção, custeada usando dinheiro público. O papa dizer que apóia um estado laico é um movimento estratégico de tirar o bispo de perto do rei. Isso não quer dizer que o bispo está fora do jogo. O papa sabe que é um erro deixar a igreja se associar ao poder. Esse erro foi cometido inúmeras vezes no passado. Os estados pontifícios era um estado soberano que foi controlado pelo papa dos séculos VIII ao XIX.

Entenda, quando o papa diz que o estado deve ser laico, ele está olhando para a política e dizendo que quer a igreja dele fora disso.  No passado, associações entre a igreja e a política colocaram a igreja em posições delicadas. O próprio estado do Vaticano foi reconhecido por Mussolini. Então o papa simplesmente se posicionou como neutro em assuntos de política. Papa esperto.

É verdade que nós brasileiros sozinhos decidimos gastar mais de 100 milhões para receber o papa. Mas esta decisão fere a neutralidade do estado diante da religião. Se o papa é um chefe de estado, o dalai lama também era quando visitou o Brasil. E mesmo o Tibet sendo um estado não reconhecido universalmente, não vi gastos de um centésimo do que foi feito com o papa.

Claramente, o governo brasileiro gastou dinheiro com o papa em uma tentativa de se auto promover. E isso só foi possível pois o povo não conhece a diferença entre política e religião. O que este post tenta mostrar é que enquanto o povo não souber distinguir as duas coisas, não estaremos em um estado laico, e teremos que continuar indo às ruas para tentarmos conquista-lo.

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4 pensamentos sobre “De novo, e quase vencidos pelo cansaço, explicando o que de fato é o tal estado laico

    • Se o argumento é que o dinheiro público foi usado como investimento, cadê o relatório do retorno deste investimento? O governo precisa provar que o investimento trará lucros.
      Se a questão era não dar prejuízos, então por que não cobrar os custos diretamente dos peregrinos?
      O governo usa o retorno com a imagem do país e com turismo como desculpa para gastar dinheiro de forma arbitrária. É assim com a copa e as olimpíadas. E o prefeito e governador de São Paulo ainda estão tentando trazer a Expo para cá.

  1. Ainda sobre o corrido na Marcha das Vadias no Rio (a performance do Coletivo Coiote com as imagens religiosas), vale a leitura da Lola Aronovich, do blog Escreva, Lola, Escreva. Acho que a melhor coisa que já li até agora sobre isso. Ela diz muitas coisas importantes. Entre elas:
    “Fico pensando também se haveria alguma feminista defendendo e justificando o ato se ele não tivesse vindo de um coletivo desconhecido, mas do Femen, por exemplo. Não, não estou comparando a Marcha das Vadias com o Femen. Estou comparando a performance do Coletivo Coiote com as tantas performances do Femen, que são feitas unicamente para atrair a atenção da mídia. E aí: e se fosse o Femen? Estaríamos dizendo que pior que o ato foi um participante da Jornada Mundial da Juventude que cuspiu numa das manifestantes da Marcha das Vadias? Que tudo bem desrespeitar símbolos religiosos porque a igreja desrespeita mulheres? Que os cristãos “chutam macumba” direto e ninguém faz nada, então também se pode chutar estátuas de Maria?
    Desconfio que não, que se fosse o Femen, nossa reação seria de repúdio. Elas nem são feministas, diríamos! Elas foram pra Marcha pra sabotá-la, só pode.”
    http://escrevalolaescreva.blogspot.com.br/2013/07/a-dimensao-do-estrago.html

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