Choramingo carola do dia: saber como funciona acaba com a graça

Um dia meus pais viraram pra mim e disseram que tinham uma coisa importante pra conversar. Eu devia ter uns 8 anos. Então eu já sabia que na melhor das hipóteses, o que eles tinham a dizer era tedioso. Quando vc é criança, você sabe que você só é chamado para uma conversa “importante” nas seguintes situações:

  1. Você fez merda
  2. Alguma outra criança fez merda e pos a culpa em você
  3. As duas alternativas acima combinadas
  4. Você incitou crianças menores a fazer merda
  5. Se algo que você disse pode colocar seu pai na cadeia — isso era um skill importante quando você era criança durante o regime militar
  6. Está na hora de você aprender que algo que você gosta de fazer, os adultos consideram que seja fazer merda. Exemplo, falar o que você quer na frente do padre.

Mas nesse dia foi diferente. Eles me chamaram pra conversar sobre uma merda que eles tinham feito. Por algum motivo, eles acharam que era bonito me fazer acreditar no Papai Noel.

Mas a cara de cu deles naquele dia não foi por eles terem deixado claro que eu não deveria confiar mais nas informações deles. A cara era como se eles tivessem pego o robozinho do Jaspion e desmontado em mil pedaços e eu pudesse ver que na verdade o robô era todo tosco. Uma vez eu desmontei um

O maior insulto pra mim não foi nem descobrir que meus pais tinham me feito de otário. Naquela época eu ainda achava que eles sabiam o que estavam fazendo. O que me aborreceu foi eles terem me chamado e chamado meu irmão menor junto pra contar a “novidade” pros dois. Eu esperei até os 8 anos para ser agraciado com a verdade. Meu irmão tinha o direito mesmo tendo só 6?? Po, 6, cacete!! 2 anos a mais de sabedoria não me dava nenhum tipo de tratamento VIP? Quando vc é criança, você quer tratamento individualizado.

Eu entendi sobre o robô do Jaspion (digo, sobre o motivo da cara de bunda) quando a conversa chegou no final e eles disseram “olha, mas não conte pras outras crianças, pois elas acreditam”.

Basicamente, eles estavam me dizendo: “olha, este aqui é o seu gás de pimenta, mas não jogue isso na cara de ninguém”. Mas a questão principal era que eles estavam com dó de me dizer como o Natal funcionava, pois isso acabava com a graça do Natal.

Aparentemente, o Natal é tão mais legal quanto mais ignorante a respeito dele você é.

Uma vez eu desmontei um desses:

http://www.youtube.com/watch?v=_Na__KjdHPg

Só pra ver que na verdade a cabeça dele não tinha nenhum sensor, como câmera. O robozinho funcionava como os carrinhos bate e volta e não tinha qualquer noção sobre o mundo que o cercava. Veja a prova no final deste outro vídeo:

http://www.youtube.com/watch?v=-9aoPoiJMtE

Mas eu não chorei quando descobri que o Dingbot era anencéfalo. Pelo contrário, essa foi uma das primeiras experiências de hacker e tinha sido o máximo.

Uma coisa que me irrita profundamente no carolismo é justamente existirem Dingbots que ninguém pode abrir. Não tente entender como o cérebro funciona, pois vai que você descobre que o determinismo é fato. Não tente fazer uma ressonância magnética funcional em alguém que está rezando, pois vai que você descobre que o que funciona na reza é simplesmente o ritmo em que as palavras são entoadas. Não tente entender a sexualidade, pois vai que você descobre que algumas pessoas já nascem com uma predisposição a serem atraídas pelo sexo “errado”. Isso colocaria as religiões como grandes vilãs de um preconceito fundado em ignorância.

A igreja católica mesma tentou fazer o heliocentrismo ser um grande tema a não ser debatido, até que depois de inúmeros erros a igreja aprendeu que ela só pode esconder seus tabus em temas que são e sempre serão uma questão de opinião, como quando começa a vida, e o que acontece depois da morte.

 

E agora um bonus para o post. Em algum lugar do meu cérebro está armazenada a musiquinha da propaganda do Dingbot:

Dingbot, ding, dingbot…

Anda pra lá e pra cá, bate e volta.

Conversa sozinho e continua a procurar.

Dingbot, ding, dingbot…

A própria letra já dava uma pista de que a coisa era um carrinho bate e volta. O robozinho vinha com um mapa (de um labirinto, se não me engano), que a cabeça de plástico ficava fingindo que lia.
Anúncios

4 pensamentos sobre “Choramingo carola do dia: saber como funciona acaba com a graça

  1. hahahahaha! Meus pais faziam aquela onda toda de Natal, mas sempre deixaram claro que o “Papai Noel” era meu pai mesmo… que comprava os presentes. Entre tantas mentiras que tive que ouvir, essa não foi uma delas.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s